Pare, pense, e faça alguma coisa!

Este é um blog sobre tecnologia e desenvolvimento, e eu tenho sido muito criterioso em evitar posts sobre outros assuntos. Mas dessa vez eu não me aguentei. Hoje li esses posts:

Se você ainda não os leu, por favor, leia agora. Depois você volta aqui e continua a ler o meu.

Não levou a sério? Cara, vai lá, lê os dois posts, você vai perder um minutinho só em cada um. Vale a pena.

Leu? Bom queria falar de 3 assuntos: carros, bicicletas e trabalho.

O primeiro texto é sobre carros. Os outros dois sairão nos próximos domingos.

Tenho um sedã popular. Comprei novo, há três anos. Está na hora de trocar. Não amo meu carro, embora goste muito do conforto e comodidade que ele traz a minha família. Já me disseram para trocar meu carro por um “melhor”, mas “melhor”, nesse caso, significa mais caro, mais imponente ou maior. Nenhum desses três adjetivos significa melhor para mim. Não é raro que eu deixe o carro na garagem e vá de transporte público a alguma reunião. Não é raro também, ver nas pessoas cara de espanto ao saber que eu cheguei até ali sem um carro. “Está tudo bem? Quer uma carona? O que houve com seu carro?” São as reações mais comuns.

Por quê? Claro, por uma série de motivos, incluindo o fato de que tem muita gente que realmente te julga pelo carro em que você anda. Mas há um outro motivo, que talvez seja mais doloroso: não ter um carro, em São Paulo, é muito ruim. Dependendo do seu caminho, andar de transporte público é desumano.

Fiz uma experiência simples. Escolhi quatro shopping centers, cada um em uma zona da cidade, e tracei as rotas no Google Maps da minha casa até lá agora:

Lugar de carro de transporte público
Zona Oeste 0:23 1:25
Zona Leste 0:30 1:20
Zona Norte 0:23 1:20
Zona Sul 0:33 1:10

Está certo, é domingo. Se seu trajeto puder ser feito de Metrô e for hora do rush, o carro perde feio. Dependendo do trajeto, é melhor até ir andando a pé pela rua do que de carro. Você olhou bem para a tabela acima? Se eu for a um shopping agora com minha família, de carro, em qualquer lugar da cidade vou gastar cerca de uma hora em deslocamento, ida e volta. Se formos de transporte público, levarei duas horas e meia, se der sorte.

Qual o resultado disso? Simples, quem puder vai andar de carro, sempre que puder. O jovem de classe baixa arruma o primeiro emprego e começa a se planejar para comprar um carro, para se livrar do ônibus, mesmo que o carro custe mais de um ano de salário. São Paulo tem 11 milhões de habitantes e 6 milhões de carros. Não cabem 6 milhões de carros nas ruas.

A matemática é simples. São Paulo tem cerca de 14 mil quilômetros de ruas e avenidas. Se todos os 6 milhões de veículos da cidade forem colocados em fila, encostados um no outro, a fila terá quase 27 mil quilômetros. Mesmo a cidade tendo centenas de avenidas com várias pistas, é fácil ver o que acontece.

A solução não é fazer mais avenidas. Nosso modelo de cidade feliz não pode ser um lugar onde todos tenham bons carros e possam dirigi-los livremente. Não porque eu ache que pessoas de determinada classe social, cor da pele, religião ou time de futebol não mereçam ter um bonito SUV de oito lugares. Simplesmente não cabe, não há espaço para isso. Nós precisamos de outro modelo de felicidade. Precisamos de uma cidade em que sair de carro seja apenas uma das boas opções.

Enquanto continuarmos achando que quem tem um carro é mais importante do que quem anda à pé, deixando de dar preferência ao mais frágil no trânsito, xingando o sujeito que teve a coragem de fazer alguma coisa ao deixar o carro em casa e sair de bicicleta, buzinando para o motorista que parou antes de uma esquina para o pedestre passar, vamos estar transmitindo uma mensagem a toda a sociedade: importante é quem tem carro. Nossas crianças estão ouvindo a mensagem. Nossos governantes também.

Isso tem muito a ver com você, que não sairia de casa sem carro nem que estivesse em Londres. Não estou dizendo que você precisa deixar de andar de carro, que isso é crime. O que estou dizendo é que, se você não quer ser obrigado a deixar o carro em casa, você precisa parar de pensar em avenidas e viadutos, e começar a pensar em tornar a cidade boa para todos. Ao votar, ao escrever, ao conversar, você deveria fazer o que estiver ao seu alcance para que São Paulo tenha transporte público excepcional, e que andar a pé, de bicicleta, de moto ou de Pogobol seja maravilhoso. É o único jeito de cabermos todos aqui.

7 comments on “Pare, pense, e faça alguma coisa!

  1. Saia de carro para mostrar que você é importante, pague estacionamento, pague pedágio, pague IPVA, pague multa, pague pelo rodizio de carros, não dê carona pra ninguém, movimente a economia para os deputados comprarem helicópteros e foda-se o meio ambiente pois você é importante!

  2. sobre o tema de carros, se te interessar, aqui em Brasília, na Esplanada dos ministérios há um déficit de vagas e um transito enorme no horário de pico. E qual o plano do governo de facilitar o transporte público? Nenhum, tão planejando o tal do complexo sub-esplanada, fazer um mega-estacionamento subterrâneo. Foda como essa mentalidade de carrismo é parte fundamental das coisas em muitos lugares 🙁

  3. Eu deveria esperar os outros textos pra comentar, mesmo assim, lá vai.

    Você me conhece e sabe que eu defendo o uso de carro com unhas e dentes. Defendo exatamente pelos motivos que você citou no texto. Estive durante algum tempo pensando em uma solução para que eu use menos carro.

    É fato que se todos deixassem o carro na garagem e usassem o ônibus não resolveria. O sistema não está preparado para essa revolução. Pensei mais um pouco e a conclusão que cheguei é que o problema não tem a ver com transporte diretamente, mas com trabalho. Se eu puder trabalhar em casa, eu não vou precisar usar o carro, ficarei mais feliz, terei mais tempo pra familia e muito provavelmente minha saúde vai melhorar.

    Pra mim até agora a solução é o home office. Mas aí é um assunto com outros problemas…

    1. Sempre defendi essa mesma ideia! Se a necessidade de se deslocar for menor, haverá menos trânsito, simples. Basta reduzir necessidade de deslocamento para o trabalho, escolas e faculdades (e-learning, home offices…). E temos um outro grande vilão no caso de SP: a má distribuição de empresas pela cidade, que gera a concentração populacional em determinadas áreas e fazendo com que pessoas que residam em regiões periféricas se desloquem por trajetos muito longos. Resultado: trânsito. Caso se proiba a instalação de empresas, shoppings e faculdades em áreas já sobrecarregadas, e obrigá-las a se redistribuir de modo mais uniforme também poderiamos melhorar muita coisa…

  4. Adorei todos os textos que li, em relação a educação no trânsito concordo 100%. Entretanto não consigo andar de trasporte público por medo. Carrego comigo um celular e um notebook de alto valor todos os dias para ir trabalhar, o medo de ser assaltado é grande, pq se não fosse esses motivos andaria com certeza do de ônibus, por exemplo

  5. Élcio, perfeito !, pode-se só trocar o nome da cidade para outra metrópole como Porto Alegre por exemplo que ainda sim o teu artigo cabe como uma luva.

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